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Num beco escuro do Rio de Janeiro ela corre desesperada, é só uma brasileirinha fugindo de um grande homem armado. Aquele homem já tentou matá-la de diversas formas: internet, reformas, estrangeirismos. Mas ela continuava lá... Até outros mais fortes que qualquer um, ah, esses ignorantes, juntaram-se a ele.
Corra mais rápido queridinha ou ele irá pegar você! Tremas, hífens, acentos corram rápido pequeninos! A grande máquina humana que tudo destrói está logo aí no seu pequeno calcanhar de máquina de escrever! Ele está destruindo tudo em seu caminho! Camões e Vinício de Moraes, Cecília Meireles e José de Alencar, Machado de Assis e Aluísio de Azevedo!
Corram! Corram! Capitu já não terá olhos de ressaca! Corram lavadeiras do cortiço que ele já tacou fogo no cortiço! E o menino de engenho foge as pressas pelo rio! O fogo já matou o gado e destruiu a cana! E o rosto de Cecília no espelho? Desfigurado pelas chamas! Que seja eterno enquanto dure! Mas como há de ser se já acabou?! Não é o amor que é fogo que arde sem se ver... O fogo arde e o amor não se vê!
Não adianta mais correr. É o fim da linha. Beco sem saída! E a iniqüidade está agora em um pão com “linguiça”! Lá está ela, a minha brasileirinha! Aquela cantada por tantos poetas! E lá está ele, quem? Aquele que tivemos de agüentar com tantos novos da atual música “popular” brasileira e suas éguinhas pocotós!
Não há mais espaço para palavras e com uma falsa justiça poética a ignorância prepara sua 42. Um tiro surdo ecoa em meio a tantos outros na noite carioca. Um bêbado trajando luto e a dona do bordel lua velam o cadáver sem corpo da pequena equilibrista enquanto o povo assiste a um show de circo no palácio do planalto. Não há palavras. Não há poesias. Não há romances. A língua brasileira está morta.
Antes da história propriamente dita vou discursar um pouco sobre as crônicas, ou melhor, sobre com elas nascem...
As crônicas nascem do dia-a-dia, seja do comum ou do extraordinário. Nascem daquilo que estamos acostumados a ver todo dias ou do espantoso que nos faz rir, chorar ou simplesmente nos admirar. Essa crônica é sobre isso: o diferente que surge em meio ao banal e surpreende como um aguaceiro num dia de céu claro.
Era uma manhã clara e de pouco sol com poucas pessoas na piscina do hotel, algumas mesas ocupadas e só. Eu me dedicava a tentar ler um livro qualquer enquanto a mulher da mesa ao lado brigava com sua filha pré-adolescente por causa do filtro solar, da água ou de qualquer outra coisa sem importância. Uma cena irritantemente familiar para, talvez, a maioria de nós.
Tentava ignora-las e tudo seria absurdamente comum se a senhora não tivesse se levantado e começado a agir estranhamente... Eu não acreditei! Ela parecia estar conversando com as plantas! Isso mesmo, estava ali uma mulher de no mínimo trinta e tantos anos acariciando e beijando as diversas plantas do canteiro ao meu lado!
O riso nessas horas é involuntário, principalmente quando a figura começou a repetir esse mesmo ritual em todas as plantas do entorno da piscina antes de desaparecer na parte interna do hotel. Quem era aquela mulher? – pensei eu – E por que tratava melhor que os próprios filhos míseras plantas? O que levava uma senhora aparentemente normal e sem grandes problemas, aparentemente repito, agir dessa maneira parecendo ridícula aos olhos dos outros? Que lhe teriam feito para ser tão rude com os próprios filhos? Que arrependimentos carrega aquela mulher? O que buscava nas flores que não encontrava em outro lugar?
Ela reaparece já de roupa trocada e quando questionada sobre seus atos responde algo confuso sobre textura, cores e odores... Ninguém entende, mas, reparando bem, há algo além de um possível interesse pela arte. Talvez um pequeno ponto de tristeza em seu sorriso largo de mais e em sua risada levemente forçada.
A mulher parecia procurar nas flores uma cura para o seu desgosto e insatisfação, fosse pessoal ou não. Uma válvula de escape pouco usual para os problemas do dia-a-dia.

Do fundo de seu coração ela queria, como queria, ser igual a elas e bailar como uma cotovia alegre ao ritmo de uma música romântica qualquer com sua poesia fraca e melodia repetitiva, mas que parecia pertencer a outro mundo. Um mundo melhor do que o dela. Não ficaria ali nem mais um minuto! A felicidade dos outros a diminuía ainda mais tornando pior a sua solidão, ergueu-se do banco e seguiu até as escadas desviando dos casais dançantes subindo-as apressada e fugindo pelos compridos corredores onde apenas o eco da festa chegava como fantasmas assombrando-a, atravessou o jardim onde uma garoa fina caía, entrou no salão comum da área vinte e três, subiu um novo lance de escadas e lá estava, o apartamento 323. O refúgio.
As luzes se encontravam apagadas e ela não se deu ao trabalho de acendê-las, em vez disso jogou-se na cama perfeitamente arruada sufocando o rosto contra o travesseiro. Ódio, ela se odiava, odiava-se por não conseguir ser como elas... Por não conseguir bailar como elas, por não atrair homens como lâmpadas atraem moscas! Algumas lágrimas solitárias umedeceram a fronha impecavelmente branca enquanto o ruído dos soluços se propagava no corredor sem que uma única pessoa pudesse os escutar. Solidão.
Ela era solitária, isso não era novidade. Novidade era nunca antes sentir-se tão esmagada pelo que o grupo social exigia dela, ser sociável... Um único trabalho que valia por todos os de Hércules e ainda mais um pouco, como poderia mudar algo inerente ao seu ser? Não muda, se aceita e ela aceitava derrotada buscando encontrar as cegas quem a iria compreender... Não... Um pouco mais para a direita, não, não... Pára! Aí, isto é ele!
A brochura desgastada, as paginas amarrotas, as letras semi-apagadas e as inúmeras marcas de dedos faziam dele o seu bem mais precioso, seu melhor amigo, a única coisa que a entendia. Aquele livro! Quem precisava de amigas? Quem precisava de namorados? Quem precisava de pessoas quando se tinha ele? Ele nunca lhe faltaria com a palavra, nunca a trairia, nunca a machucaria e, acima de tudo, sempre estaria lá mesmo quando ela fosse embora e quem sabe um dia consolaria outra pessoa do mesmo modo que hoje a consolava.

Ai, ai... Queria tanto usar uma daquelas, mas achava que não combinava exatamente consigo. Quer dizer, sempre de jeans, camiseta e bermuda no verão só que os rapazes gostavam de saias, de ver as pernas! Bom, pelo menos era isso que as garotas diziam... Suspirou e voltou a olhar no espelho a mini-saia jeans levemente desfiada nas pontas, conseqüentemente olhou também para as coxas grossas, os joelhos proeminentes e as canelas arranhadas. Gostar de futebol também era um problema e a ausência da depilação também.
Deixou-se cair na cama em plena decepção... Não entendia exatamente o que estava sentindo a ponto de querer mudar o seu jeito de ser, de desejar possuir a delicadeza necessária para usar saia! Oh! Não era isso, era?! Estava gostando de alguém e de quem seria? Quem seria essa pessoa? Ora, mas que droga! Só podia ser o Rica, aquele imbecil que vivia olhando as meninas de mini-saia e assobiando para elas! Ah! Ódio! Odiava aquele exibicionista que jurava calçar quarenta e dois! Grande mentira! Usava era trinta e oito!
Voltou a ficar de pé, virando-se de um lado para o outro no espelho tentando achar o melhor ângulo... Hum. Acho que o problema é a blusa... Aquela camiseta folgada não combinava com a saia mais ousada... Ousada?! Que ridículo! Essa palavra não combinava com seu estilo, mas mesmo assim buscou no armário uma blusa extravagante de sua irmã mais velha. Aquela coisa pequena, vermelha e decotada!
Não! Ridículo! Ridículo... Choraria se permitisse isso a si, mas não era do seu feitio, suspira fundo e procura o que faltava... Salto e batom... Não acreditava que estava pegando tudo “emprestado” da sua irmã mais velha, quando ela descobrisse! Voltou a sentar-se na cama escondendo o rosto nas mãos, engraçado, estava sentindo a presença de alguém na porta do quarto? Olhou.
Uma explosão nuclear não teria causado tanto impacto, lá estava ele, o seu respeitado pai, olhando sua figura na cama em tal estado de choque que não conseguia nem gritar! Ah! Os cabelos brancos do velho e seu bigode escovinha cobrindo o lábio superior... Um homem macho no sentido completo e tradicional da palavra – Papai... Eu posso explicar! – tinha de tentar consertar – É para uma festa a fantasia...
- NÃO! – ele não o ouviria – Cale-se João Augusto! – berrou furioso – Eu não quero nem saber! – e saiu enquanto ao pobre João Augusto... Ah! Ele estaria ferrado, muito ferrado, assim que seu rigoroso pai se se recupera do choque.
Há um lugar para onde os autores vão e lá eles se encontram com suas idéias e inspirações. Muitos já tentaram descreve-lo, mas isso é impossível já que essa terra se molda conforme a vontade do autor.
Pode ser uma ilha onde há piratas, meninos que não crescem e índios; um castelo próximo a um lago onde crianças aprendem antigas magias; um bosque onde fadas intrometem-se na vida de jovens amantes... Tantos lugares quantos livros que já foram escritos ou histórias criadas, todos localizados naquela dimensão fantástica entre a realidade e o sonho onde esses se tocam quase se beijando numa mistura de fatos que os torna um só. Você não precisa estar dormindo, mas não pode estar acordado... O estado mais comum é do devaneio, o sonhar acordado, os olhos estão abertos, mas não miram o exterior, vozes de fora não chegam a vocês... Apenas ouve a própria alma.
A embriaguez dos artistas!
É então que ela aparece! A filha da loucura, irmã do sonho e do desespero, aquela que ara a terra fértil para a inspiração semear suas crianças umedecendo-as depois com pequenas gotas de glamour... Essas sim, a causa da embriaguez.
- Salve criança do limiar do sonhar! – saúda delírio na entrada do jardim – O que, nas terras de ninguém, estais a buscar?
- Não sei bem ou não sei mais... – você pode responder lá no interior da caverna, ela rirá.
- Buscas o sonho que não podes encontrar? – são peixes voando ali? – Ou asas para até o sol, quem sabe, voar?
- Busco um ser lusco-fusco... – você diz sem o saber, as palavras não são suas... São de outrem – Portador de olhar de besouro...
- Asas de borboleta? – sua risada pode furar os tímpanos desavisados, algo como uma guitarra desafinada após as cinco da manhã quando se está tão bêbado que todos se tornam hermafroditas e o líquido no seu copo não importa, pois já tomba na sarjeta com o azedo do vômito em sua boca.
- Cores de arco-íris? – deve-se perguntar nessa conversa de loucos – Oh! Os lábios da amada pela última vez beijada antes do vil toque do veneno?
- Oh! É o oriente e Julieta é o sol! – ela lhe responderá antes de rir e dizer – Essa foi de Shakespeare, mas o que foi uma vez dado pode ser sempre de volta tomado!
Então é a vez de ficar com medo e sucumbir cada vez mais para o fundo da caverna, ela não irá te buscar apesar da voz o conseguir encontrar – Da formiga é o labor, só porque não lhe foi dado o canto para aplacar a sua dor. Da cigarra é o cantar, porque já conheceu o labutar e dele não pôde gostar!
- Afasta-te de mim este cálice... – o medo o mandará falar – Não provo do néctar imemorial, pois de mim não é esse o destino! – chorará certamente – Sede mortal foi o que disse o anjo torto quando este chegou ao mundo! – bradará em um tornado de ódio mergulhado – Não há de provar do néctar dos enamorados que pela libélula embriagada são apaixonados!
- Não digas o que não sabes! – ela ralhará ao longe – Anjos não prevêem nada, quisera-os ser como a Sibila! Podem aos céus alçar altos vôos, mas da terra e suas coisas nada sabem... – poderá balançar a cabeça em autonegação, mas a escutará e nela acreditará – O destino de um homem a ele deve pertencer, a não ser... – verá os olhos dispares na escuridão – Que a outrem o queiram entregar!
O feitiço foi lançado e você enlaçado, não há como voltar! Ela, aos poucos, da caverna o irá tirar e pela luz infinda seus olhos irão cegar. O que vez? Vês a ninfa encantada, a libélula embebedada! Aquela que pela lua é enamorada!
- Já adivinhou? – perguntará delírio a piscar – Ou seus olhos ainda são cegos para o que está além das paredes da caverna?
- É a lâmpada e eu sou a mosca a voejar em suas proximidades! – a esta altura provavelmente cairá por terra – És o depositório de glamour da humanidade, o néctar da embriaguez perpétua! Sois aquela que usam chamar de inspiração! A filha da loucura, irmã de delírio e do sonho, aquela que pela vida anda torta!
Delírio irá sorrir e tomará inspiração pelas mãos e ambas dançarão em uma brincadeira de roda em torno de você... Ao acordar não se lembrará exatamente do que aconteceu, só das palavras loucas e sem dono que vagam indolentes... Capture-as! Elas pertencem a você neste momento, porém lembre-se mortal de que uma vez tomado pelas irmãs do sonho não poderá mais voltar ao fundo da caverna nem ao ardo labor das formigas... Cada vez mais buscará o glamour liberado pelo devaneio e logo encaminhar-se-á para o desvairo... Olhos de besouro enamorado, lábios de veneno derramados... O vinho final, aquele que te tornará imortal!

A menininha dá pequenos saltinhos e diz animada coisas que não consigo escutar em sua voz fina e suave de criança, parece estar tentando alcançar as estrelas. Agora você deve sorrir do mesmo jeito que sorrio, você irá se lembrar de quando era criança e tentava alcançá-las do mesmo modo. Lembra? Lembra de quando você se permitia não acreditar nos cientistas? De quando ainda acreditava nos homens verdes de marte? Nas pessoas queridas já idas que brilhavam lá em cima? Quando você nem se importava em saber que aquele brilho se deve a reflexos de outras estrelas ou gases explodindo no espaço... Tempos bons não?
Os dois parecem conversar, escuto suas vozes mas não o que dizem, eles sorriem e ambos possuem olhos que brilham. Um mal começou a viver o outro já está aqui há, talvez, mais tempo do que gostaria. Oh! Não! Não faça isso! Não está na hora de pensar no que virá, não! É hora de sentir, hora de lembrar de como era lá na aurora do seu temo pequeno gafanhoto! Lembre-se, sim? Lembre-se de quando caçava gnomos no quintal do sítio do seu tio avô? De quando observava os arco-íris sonhando com os potes de ouro que existiam no seu fim? Das fadas que moravam dentro do armário velho e cheio de coisas interessantes da sua avó? De chupar jabuticaba no pé? De guerrear contra dragões nos fundos da horta? Da sua espada, aquele pedaço de pé de mandioca? De embalar-se na rede ouvindo a cantiga dos pássaros? Do banho de cachoeira? Do monstro de baixo da cama? E daquele que vivia no armário? Da vez que lutou contra os incas-venuzianos? E de quando foi um dos mosqueteiros de vossa majestade? E quando ajudou Hércules em seus doze trabalhos? Você consegue lembrar de seus sonhos? Você consegue lembrar do que acreditava? Você consegue recordar o que imaginava?
Enquanto eu me perdia assim nos devaneios de minha infância a menina com seu avô passaram assim como aqueles tempos também se foram. Possuo a certeza de que quando voltar a vê-los eles não serão mais como foram naquele momento. Portanto:
Lembre-se. Lembre-se de sua infância, dos seus sonhos e de suas criações. Sonhe, sonhe criança... E, quem sabe assim, você poderá voltar para a Terra do Nunca.
O Novo Peter Pan
"No one hears the cries
No escaping from this hell
Your prayers won't be heard... so die
Brainless cruel commanders
Sending death and pain
Solider only robots
Fight for their life in vain." – Warrior – Helloween
De mochila nas costas ele entrou da mesma forma que seu pai, avô, bisavô etc haviam feito antes dele... Afinal, aquela era a obrigação de todo homem honrado que amava sua pátria, é, repetia isso todos os dias tentando convencer a si mesmo de que era a escolha certa... Na verdade não era uma escolha, era obrigação! Desperdiçar valiosos anos de sua curta vida trancafiado em um quartel com um bando de homens que não tinham nenhuma vocação... Não era isso que ele queria, não sonhara com isso...
***
Cem pessoas a cada dez metros quadrados, cheiro de suor, cerveja e vômito mas ele se agarrava firmemente a guitarra velha de cordas baratas... Os cabelos longos, a camiseta preta amassada da banda favorita e os jeans rasgados denunciavam porque um garoto de quinze anos se espremia entre a multidão com um brilho no olhar, numa idade em que fazemos tudo por nossos ídolos e somos tão influenciáveis o garoto sonhava em subir aos palcos e influenciar do mesmo jeito que era influenciado pelo homem de trinta e tantos anos que havia decido levar vida de cigarra... Opa! Sua vez na fila, sorriu e gaguejou algo como: “S-sou seu m-maior fã...”, “Q-quero fazer música como você!” e “A-autografa minha g-guitarra, p-para Pedro!”; alguns minutos ao lado de quem tinha tanta importância para ele mas que não seria nem lembrado pelo grande “ELE”.
***
- Nome? – perguntou o sargento que fumava um charuto fedorento e tinha marcas de suor por toda a camisa.
- Pedro, Pedro Vieira. – falou sem emoção enquanto o homem o analisava dos pés a cabeça.
- Vai ter que cortar esses cachos mocinha... – riu e sua saliva voou em direção a camisa com a foto de Raul Seixas, a fumaça do charuto o deixava tonto – Aqui nós transformamos você em homem, pode largar essa xaropada de mulherzinha!
- Hum... – não acreditava que estava se sujeitando a isso – Cabelo cresce senhor...
O sargento soltou uma risada seca e voltou a fazer as perguntas de praxe, identidade, data de nascimento etc., enquanto a fumaça subia formando aros no teto manchado de infiltrações. – Héhé... Vamos ver se vai continuar assim depois de um tempo... – a boca do jovem se contorceu como se tivesse provado algo com gosto de fel, a verdade, por mais inacreditável que seja, é sempre amarga e dolorosa...
***
- E viva a liberdade! – berra um dos garotos bêbados que cambaleava pelo meio da rua – Viva os grandiosos dezoito anos! – bradou subindo em um dos carros estacionados cujo alarme começou a soar.
- Calem a boca seus vagabundos! – gritou por sua vez um velho que já estava quase completamente careca da janela do seu apartamento do vigésimo terceiro andar.
- Cale o senhor a sua grande e enrugada boca! – exaltaram as embargadas vozes que comemoravam a independência juvenil ao mesmo tempo em que lamentavam o fim de sua vida de folga e liberdade enquanto cabriolavam e dançavam pela rua... De qualquer forma: Viva os dezoito anos!
***
Em fileiras e uniformizados tantas outras centenas de garotos de dezoito anos com os cabelos longos raspados e desacostumados ao uniforme desajustado e ao equipamento pesado marchavam em direção ao destino irrevogável de todo ser humano. Marchavam para um inferno de fogo e destruição onde meninos viravam homens do pior jeito possível aprendendo a matar e acreditando que só existe desilusão. Matavam pessoas, mas quem morria era a esperança, a fé e os sonhos da juventude. Aqueles garotos... Esses homens!
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A terra manchada de vermelho e o céu negro pela fumaça, ele olhou para cima do alto do palanque onde o mesmo homem do charuto fedorento discursava sobre heroísmo e outras besteiras... Das dezenas de batalhões compostos de centenas de jovens restavam uns parcos homens marcados e fedorentos de suor e sangue com as mãos tingidas dessas duas substâncias, na farda verde escuro resplandeciam medalhas... Um pagamento frívolo em troca de tudo que foi perdido, doado em vão por uma pátria que não sabe agradecer aos jovens que a vida arruinou.
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Alguns anos haviam se passado e ninguém havia esquecido do olhar do jovem Pedro Vieira quando desembarcou do ônibus diante de toda a cidade, o brilho dourado dos sonhos tinha evaporado restando as sombras da dor e a fumaça difusa de quem já tinha vislumbrado em muito pouco tempo o que havia de pior na alma humana. Pedro, agora, trabalhava todos os seus dias em um mesmo prédio verde-cinzento de alguma escolar militar enquadrando desde cedo as jovens mentes nos padrões pré-estabelecidos pelo exército, tinha mulher e filhos que nunca viram seu sorriso, seus pais nunca mais receberam um olhar de carinho e alguns de seus amigos nunca mais puderam reconhecer.
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É aqui que a história termina, sendo encerrada como “Peter Pan” deveria ter sido se fosse inteiramente baseado na realidade: Então Peter Pan cresceu, deixou a Terra do Nunca, parou de acreditar em fadas, esqueceu como se voava, casou e teve filhos, viveu como a maioria de nós até que um dia morreu esquecido do que foi em juventude e lamentando o tempo que tinha de passar. Tic, tac, tic, tac. O Crocodilo do tempo persegue a todos nós, ele finalmente entendeu o medo do Capitão Gancho. Assim como o nosso pedro.
“Somewhere in a shelter sit the men
Who hold your fate in this hands
Playin' chess and you're the loser
You're a small pawn in their game
Somewhere in a shelter sit the men
And they don't realize
A war without survivors is a fight
That's never won... so die!” – Warrior – Helloween
APENAS UMA FRASE:
É incrível a capacidade das pessoas de transformarem as coisas, um acidadente como esse com quase duas centenas de vítimas fatais (se não mais!) se tornou apenas mais um SPAM na caixa de e-mails.
APENAS UMA FRASE FIM.
A Velha Senhora
A casa está vazia exceto pela velha senhora sentada na cadeira de balanço próxima a janela. Os olhos da velha senhora não estão aqui e tudo o que ela vê são ecos do passado correndo pelo quintal. A velha senhora pode ouvir ao longe o eco das risadas das crianças, seus filhos não vêm visitá-la há muito tempo. O balanço está coberto de ervas daninhas e ela o vê balançar sozinho, sua neta está longe, muito longe. As bonecas juntam poeira na estante, suas meninas há muito as trocaram por crianças de verdade. A bola está murcha em meio ao canteiro de rosas, seus meninos não têm mais tempo para brincadeiras. A rede ao seu lado está vazia, seu marido morreu há vinte anos. A velha senhora está sozinha. A velha senhora olha muito para o relógio, ela espera que eu chegue logo.
Quem sou eu?
Você ainda vai descobrir;
M.